DIMENSÕES DA VIAGEM NO UNIVERSO POÉTICO

DE JOÃO CABRAL DE MELLO NETO

 

Zênia de Faria – UFG

 

 

O universo poético de João Cabral de Melo Neto é um universo de viagens. viaja-se no tempo, no espaço, para a morte. O homem viaja, o rio viaja. Viaja-se a pé, de avião, de carro, de barco; viaja-se com a literatura.

Em alguns dos poemas, a viagem apresenta-se em sua acepçãomais corrente, a de travessia, a de percurso que se realiza para se chegar a algum lugar; em outros poemas, porém, são outras as acepções e as funções da viagem.

Os primeiros poemas que nos vem à mente, quando se pensa nas viagens na obra de Cabral, são Morte e Vida Severina e O Rio, que traz explícito o termo viagem, desde seu título alternativo: O Rio ou a viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife. Já nesses dois poemas, embora tratem ambos de uma travessia, de viagem que se faz para se chegar a algum lugar, os objetivos da viagem são diferentes.

O Rio — narrador das aventuras de seu próprio percurso — enceta sua travessia obedecendo a um antigo anseio, pois "sempre pensara ir/ caminho do mar", já que "a um rio sempre espera/ um mais vasto e ancho mar". Além desse anseio, a viagem responde a duas exigências inerentes à natureza do rio, porque "para os bichos e rios/ nascer já é caminhar" e, também, porque os rios, como os homens do mar, não conseguem evitar o "exigente chamado" do mar.

Esse narrador singular que é o Rio, narra todas as etapas de seu próprio percurso geográfico, descrevendo minuciosamente tudo o que encontra nos locais percorridos, desde sua partida até o Recife. Na verdade, nada escapa à percepção desse observador perspicaz que é o rio. Por isso, ele vai descrevendo com fidelidade a toponímia, as paisagens, as gentes, a história, os elementos econômicos das regiões por onde transita.

A relação dessa viagem, como outros poemas de Cabral, se caracteriza, como diz o poeta, "pelo grosso tecido de seu texto", pelo seu estilo prosaico, sobre o qual, aliás, o leitor já está advertido desde o início pela epígrafe de Berceo: Quiero que compongamos io e tú una prosa. O poema se caracteriza também pela ausência de idealização da realidade.

De fato, o discurso do rio reflete, com severidade, as condições de carência do espaço percorrido e das figuras que nele transitam. Essa severidade do discurso vê-se intensificada a partir da terceira estrofe, quando o rio passa a nivelar imagisticamente o homem, o animal e o mineral.

O Rio relata seu percurso como uma testemunha ocular, e seu olhar não é inocente: sua travessia ou, melhor dizendo, a narrativa de sua travessia, concretiza-se como um depoimento social. Assim, o que se apresentou como razão primeira da travessia do Rio — o anseio de chegar ao mar — é relegado a segundo plano, e o relato da viagem se transforma em relato da indigência e da penúria que caracterizam esse espaço regional.

Como o Rio, o poema Morte e vida Severina narra também um percurso, uma travessia: a viagem de Severino retirante do Sertão para o Recife. De fato, sob um certo ângulo, pode-se considerar a viagem de Severino como uma variante da viagem realizada pelo Rio, como o salienta Benedito Nunes: "ambos os poemas apresentam o mesmo epodismo da viagem que se realiza por etapas; é a ambos comum a mesma matéria referencial: a toponimímia, os elementos econômicos (plantações de cana, engenhos e usinas e os elementos geográficos (rios, paisagens do sertão, o Agreste, a caatinga, a Mata)" (1971, p.83-84).

A viagem de Severino, porém, é uma espécie de travessia do deserto em busca da terra prometida; só que a esperança de vida que impulsiona essa travessia desgasta-se a cada passo, pela constatação da morte em vida, da miséria e da penúria. Como disse o Rio, ao fim de sua viagem, observando os retirantes: eles — os Severinos — "não encontram/ na cidade que imaginavam mar,/ senão outro deserto/ de pântanos perto do mar." E o narrador de Morte e vida Severina conclui:

 

Não é viagem o que fazem,

vindo por essas caatingas, vargens;

aí é que está o seu erro:

vêm é seguindo seu próprio enterro.

             

Vemos, assim, que a viagem dos retirantes acaba se transformando em sinônimo de morte. Aliás, em outros poemas, esse poeta das viagens, que é João Cabral, estabelece também uma relação entre viagem e morte, mas em sentido oposto, isto é, a morte é que é vista como viagem, a "grande viagem".

A morte é uma presença obsessiva na produção cabralina: a morte do homem, do vegetal, do animal. A esse respeito, lembremo-nos, en passant, da série de poemas sobre os cemitérios, e de Agrestes, onde sob o título geral "A indesejada das gentes", o poeta apresenta uma série de 14 poemas sobre a morte. Lembremo-nos, também, de tantos outros poemas que, contendo ou não a palavra "morte" no título, tratam da morte.

O tratamento dado a essa temática é variado. O poeta ora adota um tom sério, ora adota um tom irônico, humorístico ou satírico. E é geralmente nesses últimos tons que ele trata da morte vista como a grande viagem. É como se ele zombasse da morte, dessa morte que espreita todos os mortais. Aliás, além de zombaria, talvez possamos falar em exorcismo. No poema "O Exorcismo", publicado em Crime na Calle Relator, João Cabral comenta sobre Gilbert Freyre:

 

Seu escrever da morte é exorcismo,

seu discurso assim me parece:

é o pavor da morte, da sua,

que o faz falar da do Nordeste.

 

Embora, no mesmo poema, J. Cabral afirme jamais falar de sua morte, "que é pessoal,/ mas da morte social, do Nordeste", a insistência com que fala da morte, particularmente nos poemas em tom jocoso, leva-nos a acreditar que, para ele também, falar da morte é uma espécie de exorcismo. Nesse sentido, aliás, o título "A indesejada das gentes" é muito significativo.

João Cabral confessou muitas vezes a influência que sofreu de Le Corbusier. E acreditamos que essa influência não se limite apenas ao aspecto construtivista de sua obra, mas também a outros aspectos. Por exemplo, no livro Por uma arquitetura, Le Corbusier sugere três novas fontes de inspiração: os aviões, os navios e os automóveis. Parece que o discípulo concordou com o mestre, pois, no universo poético cabralino, transitam os mais variados meios de transportes, como o trem, a bicicleta, o avião, o transatlântico, o barco, o automóvel, o planador, o ônibus. A presença de vários desses meios de transporte é recorrente, quando o autor trata da morte como viagem. Assim, a viagem como metáfora da morte se concretiza, de fato, como viagem, através da presença desses meios de transporte.

Um dos casos mais exemplares é o do poema intitulado "Meios de transporte", em Museu de tudo. Aí, a causa-mortis, câncer, é vista como um ônibus, pontual em seu ponto, para que o tomemos. O enfarte é visto como "um taxi que/ de repente, ao lado de quem não se pensava,/ pára no meio fio", para levá-lo,

Em Morte e vida Severina, João Cabral já utilizara os meios de transporte para hierarquizar o índice de mortalidade das pessoas de diferentes níveis sociais. O diálogo entre os coveiros mostra bem essa hierarquia. Referindo-se aos diferentes setores do cemitério, dizem eles: "as avenidas do centro, /onde se enterram os ricos/ são como porto de mar: / (...) no máximo um transatlântico / chega ali cada dia". Outro setor do cemitério é comparado à estação de trens, devido ao número de mortos que ali chegam. Mas existe ainda um terceiro setor do cemitério que é comparado a "uma parada de ônibus,/ com fila de mais de cem". É para aonde vai "a gente retirante/ que vem do Sertão de longe".

Em "A travessia do Atlântico", o avião é equiparado ao caixão. A viagem de avião é vista como uma verdadeira viagem para o além, em decorrência da impressão — para quem viaja — "de tempo e espaço abolidos". Em oposição a esse poema, em "Morrer de avião" é a lentidão da morte em avião que é posta em evidência, ao contrário da morte de guilhotina que "é limpa e vai de repente". Com o humor que lhe é peculiar, o poeta explica que o avião com seu " voar de gavião",

 

a voar círculos de vida,

disfarçando sua caída,

 

demorando-a até o mais lento

para que quem vai lá dentro

 

goze da satisfação

de uma última refeição.

 

O sarcasmo, a ironia, a irreverência e o humor são marcas constantes de "Velório de um comendador". Aí, não só o velório é tratado de modo irreverente, mas sobretudo o comendador é apresentado de modo completamente satírico e degradante. A comenda é enfocada com insistência, não só por ser o objeto que caracteriza a fatuidade do morto, mas também, como o salienta Secchin, por ser o "único vestígio de sobrevida do comendador: o que dele permanece é a instituição, simbólica e materialmente mais forte do que o indivíduo que a representa" (1985, p.215). Essa sobrevida da comenda é, pois, ressaltada, tanto por seu valor simbólico, quanto pela matéria de que é feita : metal.

O 3º Segmento do poema, trata da morte como viagem, ao apresentar o caixão como veículo. O poeta comenta:

 

Embarcado no caixão,

parece que ele, afinal,

encontrou o seu veículo:

a marca e o modelo ideal.

 

Mais adiante, precisa o poeta: esse veículo de marca e modelo ideal é "um barco". Ainda nesse 3º segmento, completando a seqüência Caixão/ veículo/ barco, o ideal de imobilismo do comendador e a comenda se fundem, através da visão do metal da comenda como "âncora a atar-se ao pescoço/ para não deixar que nada /se mova de um mesmo porto". Assim, o barco é o veículo ideal, porque, como o projeto existencial do morto, vai "parado,/ não tem rodas, é todo freio".

Outras viagens há, porém, no universo poético cabralino, que não têm como objetivo uma travessia, ou um percurso para se chegar a algum lugar. Elas têm como função a exploração perceptiva do mundo. Aí, são os sentidos que orientam a apreensão do mundo. Este é o caso, por exemplo, de "O automobilista infundioso" . O poema, obedecendo ao princípio de composição em séries de Serial — livro em que se encontra — apresenta uma viagem de automóvel através de quatro regiões, sendo três da Europa e uma do Brasil. Cada série enfoca uma região diferente, a saber: a Provença, o Sertão, a Inglaterra e La Mancha. Estas regiões não se encontram reunidas no poema por suas semelhanças — como acontece com outras regiões examinadas e comparadas por João Cabral, em outros poemas, sobretudo os de Paisagens com Figuras — mas pelo fato de serem percebidas pelo automobilista, que as atravessa, pelos sentidos. Trata-se, de fato, de uma viagem sensorial.

Nesse poema, a Provença é percebida pelo olfato, através de uma gama de odores de elementos vegetais peculiares à região — timo, mostarda, alfazema, lavanda : "cheiros castos, ainda vegetais, em mato", esclarece o poeta. Já o Sertão é percebido através de sensações táteis, isto é, sensações de dureza e aspereza, que se desprendem da rudeza da natureza, como as causadas pela "lixa R da paisagem", por "urtigas", "por um ninho farpado./ feito de espinhos e talos".

Opondo-se totalmente à impressão transmitida pela paisagem do Sertão, o espaço da Inglaterra é caracterizado pela imagem do algodão. Aqui, são a visão e o tato que fornecem ao viajante a característica essencial desse espaço. O que o automobilista apreende pela vista é esse "aspecto algodoento/ de uma névoa-todo-o-tempo", que "algodoa/ o espaço de coisa a coisa;/ embota nelas as quinas,/ o duro e o claro, o que é linha". Do ponto de vista do contato, que sugere o macio e o fofo, o automobilista tem a impressão de que "as rodas vão sobre algodão".

Finalmente, a viagem por La Mancha é marcada pelas sensações de liquidez, tanto do ponto de vista do visual como do tátil. Na percepção do viajante, a terra se transforma em mar. A planura e a amplidão da paisagem transmitem a impressão de que ele "vai rolando na água aberta do oceano", e se sente "entre horizontes de mar". Essa sensação é tão forte, que a visão de um mastro de um barco ao longe se superpõe à visão da torre de uma igreja.

Em duas das séries, a força sensações é tão grande, que as essências do espaço por elas captadas são absorvidas pelo observador, no mais profundo de seu ser, e a ele se incorporam: na Provença, o viajante, em decorrência dos "cheiros castos", "do casto normal de planta,/ do sadio e de criança", tem a "alma limpa". No Sertão, "a alma que ele carrega/ se arrasta por paus e pedras". Segundo Benedito Nunes, João Cabral, fundando sua elaboração poética num ato de intuição fenomenológica, seguiu "um percurso que vai da percepção externa de objetos sensíveis à abstração ideatória a eles inerente" (1971, p. 122).

Outro poema em que a viagem funciona como uma forma de percepão do mundo pelos sentidos é "De um avião". Nesse poema, nos é mostrada a modificação da paisagem de Pernambuco, apreendida pelo olhar de um observador. À medida que este, num avião, vai se distanciando do campo de pouso e sobe em círculos e em aspirais ascendentes, o poeta descreve a redução progressiva e o desaparecimento da percepção visual dos diferentes elementos da paisagem.

O observador passa da identificação precisa dos objetos e formas vistas do avião — nos primeiros círculos do vôo — inclusive a cidade por entre a lama negra, os mangues, a cicatriz do homem, para a uma visão de harmonia e pureza, ao chegar nos circulos mais altos. Como observa o poeta: a paisagem ainda é a mesma, mas parece escrita numa língua mais culta, sem vozes de cozinha, traduzida numa língua mais diplomática, onde as casas são brancas, as estradas geométricas, a terra limpa. Depois, em decorrência da altura, "a distância suprime por completo todas as linhas;/ restam somente cores/ justapostas sem fímbria".

Em seguida, a partir de um círculo mais alto do avião, "todas as cores/ das coisas que são Pernambuco/ fundem-se todas nessa/ luz de diamante puro". Por fim, até essa luz desaparece e "agora Pernambuco é o que coube à memória". Ocorre, então, um movimento inverso de recuperação da paisagem através da memória, como o afirma o poeta : "Já para encontrar Pernambuco/ o melhor é fechar os olhos e buscar na lembrança/ o diamante ilusório".

Esse poema mostra exemplarmente o funcionamento da percepção poética, isto é, o afastar-se para se ter uma percepção diferenciada do objeto examinado pela vista e pela linguagem. Assim, à ilusão da imagem de Permambuco, propiciada pela visão distanciada, se sobrepõe a memória. Cabe ao poeta, pela memória, refazer a imagem desaparecida: "refazer aquele diamante/ que vi apurar-se cá de cima,/ que de lama e sol/ compôs luz incisiva". Como o indica Marta Peixoto,

 

as operações que figuram no poema, de mover-se em círculos, buscar, refazer e desfazer, em sua aplicação mais geral descrevem métodos da linguagem de Cabral, que também busca a metáfora exata, logo a desfaz, para em seguida refazê-la por meio de outra analogia (1983, p.166).

 

Embora a temática da viagem seja recorrente na obra de João Cabral — estando presente em poemas de praticamente todos os seus livros — pudemos examinar apenas algumas de suas ocorrências, em virtude do limite do tempo. Como vimos, pelos exemplos apresentados, a viagem é utilizada pelo autor em acepções e com funções diferentes. Através dessa temática — examinando objetos, o homem, a paisagem, situações, condições da vida social — o poeta manifesta posições estéticas, faz crítica social, aborda noções abstratas, como o passar do tempo. De fato, o autor imprime a essa temática uma multiplicidade de direções que não seria possível examinar aqui. Assim, as dimensões da viagem no universo poético de João Cabral foram apontadas apenas parcialmente. Considerando a estreita articulação entre o dizer e o fazer na poética desse autor, estamos consciente de que falar da temática, sem explicitar os aspectos mais especificamente lingüísticos e metalingüísticos dos poemas que a constituem é ficar a meio do caminho do que realmente interessa na produção poética cabralina: seu processo criador. E praticamente não pudemos nos deter nesse aspecto da questão. Essa lacuna será corrigida em estudos posteriores, mais abrangentes.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

MELO NETO, João Cabral de. Obras completas. (Org.) Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

NUNES, Benedito . João Cabral de Melo Neto. Petrópolis: Vozes, 1971.

PEIXOTO, Marta. Poesia com coisas. São Paulo: Perspectiva, 1983.

SECCHIN, Antônio Carlos. João Cabral: A Poesia do Menos. São Paulo: Duas Cidades; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.